Algumas mágoas não passam apenas com o tempo. Elas continuam vivas porque aconteceram em momentos em que a pessoa mais precisava de cuidado, presença ou proteção. Quando alguém importante falha justamente nesse ponto, a dor não fica apenas na lembrança. Ela entra no corpo, muda a confiança e cria uma pergunta difícil: “se eu precisar de você de novo, vou ficar sozinho?”.
Nem toda dor vira uma ferida profunda. Pessoas se frustram, discutem, falham, se distraem e dizem coisas ruins em momentos de tensão. Muitas dessas situações podem ser reparadas com uma conversa honesta, um pedido de desculpas e mudança de atitude. Mas algumas experiências atravessam o coração de forma diferente. São momentos em que a pessoa sentiu abandono, traição, humilhação, desproteção ou rejeição quando estava vulnerável.
Uma ferida emocional profunda costuma nascer quando a necessidade de apego foi violada. Isso pode acontecer em um casal, em uma família, entre pais e filhos, entre irmãos ou em qualquer vínculo muito importante. A pessoa precisava sentir “você está comigo”, mas recebeu a mensagem oposta: “você está sozinho”, “sua dor não importa”, “você é demais”, “não posso contar com você”, “você não me protege”.
O difícil é que, depois de uma ferida assim, o presente passa a carregar o peso do passado. Uma situação pequena pode acionar uma lembrança grande. Um silêncio pode lembrar abandono. Uma demora pode lembrar traição. Uma crítica pode lembrar humilhação. A pessoa reage não apenas ao que acontece agora, mas ao medo de que a antiga dor se repita.
O que torna uma mágoa tão profunda
Uma mágoa se torna profunda quando atinge a segurança básica do vínculo. Não é apenas “você errou comigo”. É “você falhou comigo quando eu mais precisava”. Essa diferença é muito importante. Um erro comum pode frustrar. Uma falha em momento de necessidade pode quebrar confiança.
Imagine alguém que vai passar por um procedimento médico e pede presença do parceiro. Se o parceiro minimiza o medo, chama a necessidade de exagero ou deixa a pessoa enfrentar tudo sozinha, a dor pode se gravar como abandono. O evento prático talvez tenha durado poucas horas, mas o significado emocional pode durar anos: “quando estou frágil, não posso contar com você”.
Outro exemplo é a traição. A dor não está apenas no ato em si. Está na quebra de segurança, na sensação de ter sido enganado, substituído, exposto ou deixado sem chão. A pessoa ferida pode pensar: “o que era real?”, “eu tinha valor?”, “como posso confiar no meu próprio julgamento?”, “se você mentiu antes, como sei que não mente agora?”.
Em famílias, uma ferida profunda pode surgir quando uma criança ou adolescente procura proteção e não encontra. Pode ser um momento de abuso não acreditado, uma humilhação pública, uma rejeição em crise, uma ausência em doença, uma comparação cruel ou uma sensação repetida de invisibilidade. O filho cresce, mas a dor pode continuar perguntando: “por que ninguém veio?”.
Feridas profundas não são apenas lembranças ruins. São momentos em que a pessoa aprendeu, pela dor, que o vínculo talvez não fosse seguro quando mais importava.
Por que a ferida não fecha sozinha
Muita gente acredita que o tempo cura tudo. O tempo pode suavizar algumas dores, mas nem sempre cura feridas de vínculo. Quando não há reconhecimento, a mágoa pode ficar congelada. A pessoa continua vivendo, trabalhando, cuidando da casa, sorrindo em reuniões familiares, mas por dentro mantém uma parte em alerta.
Uma ferida não reconhecida costuma gerar repetição. A pessoa ferida tenta falar, mas o outro minimiza. Tenta explicar, mas o outro se defende. Tenta esquecer, mas o corpo lembra. Depois de muitas tentativas frustradas, ela pode se fechar, atacar ou ficar presa em vigilância.
O que mantém a ferida aberta não é apenas o evento original. É a ausência de resposta depois dele. Quando a dor recebe frases como “já passou”, “você exagera”, “não foi bem assim”, “pare de tocar nisso”, a pessoa se sente ferida de novo. A mensagem emocional é: “sua dor ainda não tem lugar”.
Por isso, o reparo verdadeiro precisa ir além de pedir que o outro esqueça. É preciso olhar para o significado da ferida. O que foi quebrado? Confiança? Proteção? Valor? Pertencimento? Segurança? Presença? Sem isso, a conversa fica superficial.
A diferença entre desculpa rápida e reparo real
Uma desculpa rápida pode ser útil em situações simples. Mas feridas profundas pedem reparo real. Dizer “desculpa” apenas para encerrar o assunto pode piorar a dor. A pessoa ferida sente que sua experiência foi reduzida a uma formalidade.
O reparo real começa com escuta. A pessoa que feriu precisa ouvir a dor sem correr imediatamente para justificar, corrigir, atacar ou comparar sofrimentos. Precisa suportar o desconforto de saber que suas ações tiveram impacto. Isso não é fácil. Ouvir que machucamos alguém importante pode despertar vergonha. Mas fugir dessa vergonha impede a cura.
Um pedido de desculpas reparador é específico. Em vez de “desculpa qualquer coisa”, ele diz: “eu sinto muito por não ter ficado com você quando você estava com medo”. Em vez de “desculpa se você se sentiu assim”, ele diz: “eu vejo que minha atitude fez você se sentir abandonado”. Em vez de “já pedi desculpa”, ele diz: “entendo que essa dor ainda precisa ser escutada”.
Reparar também exige mudança. A pessoa ferida precisa ver sinais concretos de que a antiga falha não será repetida da mesma forma. Palavras abrem a porta, mas atitudes constroem o novo chão.
O primeiro passo: declarar a dor
Para que uma ferida seja reparada, a dor precisa encontrar palavras. Isso não significa falar de qualquer jeito ou no meio de uma briga destrutiva. Significa expressar a experiência emocional de forma clara: “quando aquilo aconteceu, eu me senti sozinho”, “eu precisei de você e senti que minha necessidade foi tratada como fraqueza”, “desde então, uma parte minha não consegue confiar”.
Declarar a dor é diferente de atacar. Atacar diz: “você é horrível”. Declarar a dor diz: “isso me feriu profundamente”. Atacar tenta vencer. Declarar tenta ser visto. A diferença pode parecer pequena, mas muda a chance de escuta.
Para muitas pessoas, declarar a dor é assustador. Elas têm medo de ouvir de novo que exageram. Medo de serem rejeitadas. Medo de descobrir que o outro realmente não se importa. Por isso, às vezes preferem guardar, ironizar ou explodir. Mas a ferida guardada costuma continuar comandando a relação.
Uma forma cuidadosa de começar é dizer: “eu preciso falar de algo que ainda dói. Não quero brigar, mas preciso que você entenda o que ficou em mim”. Essa abertura mostra intenção de reparo, não de destruição.
O segundo passo: o outro precisa ouvir
Uma ferida começa a mudar quando a pessoa que feriu consegue ouvir. Ouvir não é apenas ficar quieto. É permitir que a dor do outro tenha realidade. É tentar imaginar como aquela situação foi vivida por dentro. É não reduzir tudo à própria intenção.
Muitas pessoas se defendem dizendo: “mas eu não quis te machucar”. Isso pode ser verdade. Mas a intenção não apaga o impacto. Alguém pode abandonar sem intenção de abandonar. Pode humilhar tentando corrigir. Pode trair dizendo a si mesmo que estava confuso. Pode se calar tentando evitar conflito. O impacto ainda precisa ser reconhecido.
Uma resposta que ajuda seria: “é difícil ouvir isso, mas quero entender”. Ou: “eu não percebia que você tinha se sentido tão sozinho”. Ou ainda: “eu vejo que, para você, aquele momento significou que eu não estava do seu lado”. Essas frases não resolvem tudo, mas abrem espaço.
Quando a pessoa ferida percebe que finalmente foi ouvida, algo no corpo pode amolecer. Não porque a dor desaparece imediatamente, mas porque ela deixa de estar sozinha com a lembrança. A presença do outro começa a tocar o lugar onde antes houve ausência.
O terceiro passo: assumir responsabilidade
Responsabilidade é diferente de vergonha paralisante. A vergonha diz: “sou uma pessoa terrível”. A responsabilidade diz: “minha ação feriu, e eu preciso responder por isso”. A vergonha pode levar à defesa. A responsabilidade pode levar ao reparo.
Assumir responsabilidade não significa aceitar uma versão exagerada ou injusta dos fatos. Significa reconhecer a parte que lhe cabe. Talvez você estivesse com medo. Talvez estivesse imaturo. Talvez não soubesse lidar com emoção. Talvez tenha fugido. Talvez tenha traído. Talvez tenha sido cruel. Seja qual for a razão, o impacto precisa ser encarado.
Frases responsáveis são diretas: “eu te deixei sozinho naquele momento”; “eu menti, e isso quebrou sua confiança”; “eu minimizei sua dor”; “eu usei sua vulnerabilidade contra você”; “eu não protegi você quando deveria”. Esse tipo de reconhecimento é doloroso, mas poderoso.
A pessoa ferida precisa sentir que não está mais carregando a verdade sozinha. Quando quem feriu assume responsabilidade, o peso muda de lugar. A ferida deixa de ser uma luta para provar que doeu. Passa a ser uma dor compartilhada e reconhecida.
O quarto passo: compreender o que aconteceu sem justificar
Depois de reconhecer a dor e assumir responsabilidade, pode ser útil entender o estado emocional de quem feriu no momento da falha. Mas isso precisa acontecer no tempo certo. Se a explicação vem cedo demais, soa como desculpa. Se vem depois da escuta, pode ajudar a organizar a história.
Por exemplo: “eu estava assustado e não sabia lidar com sua necessidade, então fugi”. Ou: “eu me senti pressionado e respondi com frieza”. Ou: “eu estava buscando validação fora da relação e fiz uma escolha que te feriu”. Essas explicações não apagam a dor. Elas ajudam a dar sentido ao que aconteceu.
Compreender não é passar pano. É tirar a ferida do campo da confusão total. Às vezes, a pessoa ferida precisa entender se foi falta de amor, medo, imaturidade, egoísmo, fuga, vício, desespero ou descuido. Saber o que aconteceu ajuda a avaliar se há possibilidade de mudança.
O cuidado está em não transformar explicação em defesa. A frase “eu fiz isso porque estava sobrecarregado” pode soar como justificativa. Já “eu estava sobrecarregado, mas isso não justifica ter te deixado sozinho” comunica responsabilidade.
O quinto passo: remorso que toca o coração
Remorso não é teatro. Também não é autopunição. Remorso é a capacidade de sentir a dor causada ao outro e desejar reparar. Ele aparece quando a pessoa não está apenas tentando se livrar da culpa, mas realmente se importa com o ferimento do vínculo.
A pessoa ferida geralmente percebe a diferença entre remorso e pressa. Remorso diz: “eu vejo sua dor e ela importa para mim”. Pressa diz: “perdoe logo para eu parar de me sentir mal”. Remorso aproxima. Pressa pressiona.
Uma resposta de remorso pode ser: “eu sinto muito por você ter enfrentado aquilo sozinho por causa da minha ausência. Imaginar você naquele momento me dói. Eu queria ter feito diferente e quero aprender a estar presente agora”. Essa resposta toca a ferida porque vai ao ponto da necessidade quebrada.
O remorso precisa ser acompanhado de paciência. A pessoa ferida pode não conseguir confiar imediatamente. Pode ter perguntas. Pode oscilar. Pode lembrar de novo. Quem quer reparar precisa entender que a confiança não volta sob comando. Ela volta por experiências repetidas de segurança.
O sexto passo: criar uma nova experiência
A ferida foi criada em uma experiência de desamparo, abandono, traição ou humilhação. A reparação precisa criar uma experiência oposta: presença, responsabilidade, cuidado e segurança. Não basta explicar o passado. É preciso viver algo novo no presente.
Se a ferida foi “você não veio quando precisei”, a nova experiência precisa ser “agora eu venho e permaneço”. Se a ferida foi “você mentiu”, a nova experiência precisa ser transparência consistente. Se a ferida foi “você me humilhou”, a nova experiência precisa ser respeito e proteção da dignidade. Se a ferida foi “minha dor não importou”, a nova experiência precisa ser escuta cuidadosa.
Essas novas experiências precisam ser concretas. Podem incluir conversas combinadas, retorno depois de pausas, atitudes de transparência, presença em momentos importantes, respeito a limites, mudanças de rotina, ajuda profissional, cuidado com o tom de voz e reparos mais rápidos.
O corpo aprende pela repetição. Uma única conversa pode abrir caminho, mas a confiança volta quando a pessoa ferida vê, muitas vezes, que algo mudou. A pergunta interna “posso contar com você?” precisa receber novas respostas.
Perdão não pode ser exigido
Perdão é um tema delicado. Algumas pessoas pressionam a pessoa ferida a perdoar rapidamente. Dizem que guardar mágoa faz mal, que é preciso seguir em frente, que todos erram. Pode haver verdade em parte disso, mas perdão exigido não cura. Ele pode virar silêncio forçado.
A pessoa ferida precisa de tempo para organizar a dor. Precisa sentir que sua experiência foi reconhecida. Precisa avaliar se há segurança para se abrir novamente. Precisa decidir, com liberdade, o que é possível. Perdão não é botão. É processo.
Também é importante diferenciar perdão de reconciliação. Uma pessoa pode, em algum momento, soltar parte do peso interno e ainda decidir que não é seguro retomar proximidade. Reconciliação exige duas pessoas e mudança real no vínculo. Perdão pode ser um processo interno; reconciliação precisa de responsabilidade relacional.
Em alguns casos, a melhor reparação possível não é voltar a ser como antes, mas construir limites novos. Em outros, a relação pode se tornar mais honesta e próxima do que era. Cada história precisa ser olhada com cuidado.
Quando a ferida envolve traição
A traição é uma das feridas mais profundas porque quebra a sensação de realidade compartilhada. A pessoa traída não sofre apenas pelo encontro, pela mentira ou pelo segredo. Sofre porque começa a duvidar do chão onde pisava. O passado é revisto. O presente fica inseguro. O futuro parece ameaçador.
Reparar uma traição exige muito mais do que dizer “acabou”. Exige transparência, paciência, escuta, responsabilidade e consistência. A pessoa ferida pode precisar fazer perguntas. Pode lembrar de detalhes. Pode ter gatilhos. Pode precisar de sinais repetidos de que a verdade agora tem lugar.
Quem traiu precisa entender que a confiança não volta porque deseja ser perdoado. Volta quando se torna confiável de novo. Isso significa abandonar ambiguidades, responder com clareza, não culpar a pessoa ferida por sua dor, aceitar consequências emocionais e buscar compreender o que a traição destruiu.
A reconstrução é possível em algumas relações, mas não em todas. Ela depende de remorso real, mudança concreta e escolha livre da pessoa ferida. Sem isso, pedir reconciliação pode ser apenas pedir que a ferida seja escondida.
Quando a ferida envolve abandono
Abandono emocional acontece quando alguém importante não aparece em um momento de grande necessidade. Pode ser uma doença, uma perda, uma crise, uma gravidez, uma dificuldade com filhos, uma exposição pública, uma decisão difícil ou um momento de medo intenso. A pessoa guarda a lembrança: “eu precisei e você não estava”.
Essa ferida pode continuar aparecendo em situações pequenas. O parceiro demora a responder e o corpo lembra do abandono. O pai não liga e o filho adulto sente de novo a velha solidão. A família evita um assunto e a pessoa revive a sensação de invisibilidade.
Reparar abandono exige presença consistente. A pessoa que faltou precisa escutar como foi ficar só. Precisa reconhecer que sua ausência teve peso. Precisa mostrar, em situações atuais, que pode aparecer. Não basta dizer “eu não sabia”. Agora é preciso aprender a saber.
A pessoa ferida também pode precisar dizer claramente que tipo de presença importa. “Quando eu estiver com medo, preciso que você me pergunte como estou.” “Quando eu disser que algo é importante, preciso que você não minimize.” “Quando você precisar se afastar, preciso que diga quando volta.”
Quando a ferida envolve humilhação
Humilhação fere o senso de valor. Pode acontecer em público ou em privado. Pode vir como deboche, crítica cruel, exposição de fraquezas, comparação, desprezo, riso diante da dor ou uso de uma vulnerabilidade como arma. A pessoa humilhada pode continuar ouvindo aquela voz muito tempo depois.
Reparar humilhação exige devolver dignidade. Quem humilhou precisa reconhecer exatamente o que fez: “eu te diminuí”, “eu usei sua dor contra você”, “eu ri quando você precisava de respeito”. Frases vagas não alcançam uma ferida tão específica.
Também é preciso mudar o modo de falar. Uma relação não se torna segura se o desprezo continua aparecendo em cada conflito. A pessoa ferida precisa ver que sua vulnerabilidade será protegida. Que suas lágrimas não serão ridicularizadas. Que seus erros não serão transformados em identidade.
A dignidade se reconstrói quando a pessoa percebe que pode ser vista sem ser diminuída. Isso exige cuidado repetido com palavras, tom, humor e postura. Brincadeiras que ferem não são inofensivas quando tocam uma ferida.
O papel dos limites na reparação
Reparar não significa abrir mão de limites. Pelo contrário: limites são necessários para que a segurança volte. A pessoa ferida pode precisar dizer o que não aceita mais. “Não aceito mentiras.” “Não aceito gritos.” “Não aceito que minha dor seja ridicularizada.” “Não aceito ser pressionado a superar antes de estar pronto.”
Limites protegem a reparação de virar repetição. Sem limite, a pessoa ferida pode continuar se expondo ao mesmo padrão. Com limite, a relação ganha contorno. O outro sabe o que precisa mudar. A pessoa ferida recupera parte de sua agência.
Quem quer reparar precisa respeitar limites sem transformá-los em ofensa pessoal. Se a pessoa ferida precisa de tempo, isso não é necessariamente vingança. Se precisa de transparência, não é apenas controle. Se precisa de distância temporária, pode ser proteção.
Limites saudáveis não buscam punir. Buscam criar condições para que o vínculo seja menos perigoso. Quando o limite é respeitado, a confiança começa a ter onde se apoiar.
Quando a reparação não é possível com o outro
Nem toda ferida será reparada diretamente com quem feriu. Às vezes, a pessoa morreu, sumiu, nega tudo, continua machucando ou não tem capacidade de assumir responsabilidade. Isso é doloroso. A pessoa ferida pode sentir que ficou sem justiça emocional.
Nesses casos, a reparação precisa acontecer por outros caminhos. Pode acontecer em terapia, em uma amizade segura, em um relacionamento atual mais cuidadoso, em grupos de apoio, na escrita, na espiritualidade, no corpo, em escolhas de limite e autocuidado. O objetivo é tirar a pessoa da solidão da ferida.
Mesmo sem resposta do outro, é possível reconstruir uma narrativa mais justa: “eu precisava de cuidado e não recebi”; “a falha dele não define meu valor”; “minha dor faz sentido”; “hoje posso buscar relações mais seguras”; “não preciso continuar me oferecendo ao mesmo abandono”.
Isso não apaga o passado. Mas muda a posição da pessoa diante dele. Ela deixa de esperar eternamente uma resposta de quem não a oferece e começa a construir segurança onde ela é possível.
O cuidado com feridas traumáticas
Algumas feridas emocionais são também traumáticas. Elas envolvem medo intenso, abuso, violência, coerção, ameaça, desamparo ou repetição de situações em que a pessoa não tinha como se proteger. Nesses casos, o cuidado precisa ser ainda maior.
Feridas traumáticas não devem ser abertas de qualquer jeito, em qualquer ambiente. A pessoa precisa de segurança suficiente, apoio e ritmo. Falar tudo de uma vez pode sobrecarregar. O corpo pode entrar em pânico, congelamento ou desligamento. A reparação precisa respeitar limites internos.
Quando há trauma em uma relação atual, é essencial avaliar segurança. Se a pessoa que feriu continua ameaçando, manipulando, humilhando ou agredindo, o foco principal não é uma conversa profunda de vulnerabilidade. O foco é proteção.
Ajuda profissional pode ser muito importante. Um terapeuta preparado pode ajudar a pessoa a regular emoções, nomear a dor, diferenciar passado e presente e escolher caminhos de cuidado sem se expor a novos danos.
Como saber se há reparo verdadeiro
O reparo verdadeiro aparece em sinais repetidos. A pessoa que feriu não se irrita toda vez que a dor reaparece. Não exige esquecimento rápido. Não transforma o sofrimento do outro em inconveniente. Não faz a pessoa ferida se sentir culpada por ainda precisar de cuidado.
Também há mudança concreta. O comportamento que feriu diminui ou cessa. Há mais transparência. Há mais presença. Há mais cuidado com palavras. Há mais retorno depois de pausas. Há mais disposição para ouvir. Há menos defesa automática.
A pessoa ferida, aos poucos, pode sentir menos necessidade de vigiar. Pode testar menos. Pode falar da dor com menos desespero. Pode começar a acreditar que algo novo está acontecendo. A confiança volta como uma planta frágil: precisa de tempo, luz e proteção.
O reparo falso, por outro lado, costuma ter pressa, irritação e repetição do dano. A pessoa pede desculpas, mas continua igual. Diz que se importa, mas não escuta. Quer perdão, mas não quer responsabilidade. Nesse caso, a ferida permanece aberta.
Conclusão
Mágoas profundas surgem quando alguém importante falha em um momento de grande necessidade. A dor pode envolver abandono, traição, humilhação, desproteção ou rejeição. Essas feridas não se curam apenas com o passar do tempo, especialmente quando nunca foram reconhecidas.
Reparar exige coragem dos dois lados. A pessoa ferida precisa encontrar uma forma segura de declarar a dor. A pessoa que feriu precisa escutar, assumir responsabilidade, compreender sem justificar, expressar remorso e oferecer novas experiências de cuidado. A confiança volta quando o vínculo responde de modo diferente ao ponto onde antes falhou.
Perdão não pode ser exigido, e reconciliação não deve ser forçada. Algumas relações podem se reconstruir de forma mais profunda. Outras precisam de limites ou distância. O essencial é que a dor deixe de ser negada e a pessoa ferida recupere dignidade, clareza e proteção.
Feridas emocionais são sérias porque tocam nossa necessidade mais humana: saber que, quando estamos vulneráveis, não seremos deixados sozinhos. Quando uma relação consegue responder a essa necessidade com verdade, cuidado e mudança, algo novo pode nascer. O passado não desaparece, mas deixa de ser o único roteiro do vínculo.
Continue lendo
- Por que precisamos tanto de conexão emocional
- O que é apego e como ele aparece na vida adulta
- Apego seguro: quando o vínculo vira força
- Apego ansioso: o medo de não ser escolhido
- Apego evitativo: quando se afastar parece proteção
- Como a infância influencia nossos relacionamentos
- Emoções não são inimigas: elas mostram o caminho
- Por que brigamos com quem mais amamos
- Como criar segurança emocional no relacionamento
- A pergunta escondida nos conflitos: você está comigo?
- Casais e conexão: como sair do ciclo de ataque e defesa
- Quando o silêncio machuca: distância emocional e solidão a dois
- Família, vínculo e segurança: como reparar laços difíceis
- Pais, filhos e emoções: o que fortalece uma família
- Trauma e amor: por que segurança muda tudo
- Ansiedade, depressão e vínculos inseguros
- Como regular emoções sem se desligar de si mesmo
- Autonomia e dependência saudável: o equilíbrio que cura
- Como construir vínculos mais seguros no dia a dia
Referências bibliográficas
JOHNSON, Susan M. Teoria do apego na prática: terapia focada nas emoções com indivíduos, casais e famílias. Tradução de Daniel Vieira. Revisão técnica de Giulia Altera e Adriana Zilberman. Porto Alegre: Artmed, 2025.
BOWLBY, John. Attachment and Loss. Vols. 1–3. New York: Basic Books, 1969–1980.
BOWLBY, John. A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. New York: Basic Books, 1988.
MAKINEN, Julie A.; JOHNSON, Susan M. Resolving attachment injuries in couples using emotionally focused therapy: Steps toward forgiveness and reconciliation. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 74, 1055–1064, 2006.
MACINTOSH, Heather B.; HALL, Jennifer; JOHNSON, Susan M. Forgive and forget: A comparison of emotionally focused and cognitive-behavioral models of forgiveness and intervention in the context of couples infidelity. In: PELUSO, Paul R. (Ed.). Infidelity: A practitioner’s guide to working with couples in crisis. New York: Routledge, 2007.
MIKULINCER, Mario; SHAVER, Phillip R. Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.
JOHNSON, Susan M. Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. New York: Little, Brown Spark, 2008.
JOHNSON, Susan M. Love Sense: The Revolutionary New Science of Romantic Relationships. New York: Little, Brown Spark, 2013.