Apego é o nome dado à nossa necessidade profunda de criar laços com pessoas importantes. É a busca por proximidade, cuidado, proteção, conforto e confiança. Na infância, isso aparece de forma clara na relação com quem cuida de nós. Na vida adulta, aparece no amor, nas amizades, na família, na forma como pedimos ajuda, lidamos com conflitos e reagimos quando sentimos medo de perder alguém.
Muita gente pensa que apego é apenas “grude”, carência ou dificuldade de ficar sozinho. Essa é uma visão pequena demais. Apego não é apenas querer estar perto. É um sistema emocional que se ativa quando precisamos de segurança. Ele acorda com mais força quando estamos tristes, inseguros, ameaçados, doentes, rejeitados, sobrecarregados ou diante de uma escolha importante. Nesses momentos, procuramos sinais de que alguém confiável está conosco.
Na prática, o apego responde a perguntas muito simples e muito profundas: “posso contar com você?”, “você se importa comigo?”, “eu tenho valor para você?”, “se eu mostrar minha fragilidade, você vai se aproximar ou se afastar?”, “quando eu precisar, você estará disponível?”. Essas perguntas nem sempre são feitas em voz alta. Muitas vezes aparecem escondidas em reações, brigas, silêncios, ciúmes, afastamentos, cobranças, irritações ou tentativas de agradar.
O apego começa cedo, mas não fica preso à infância. As primeiras relações ensinam ao corpo e à mente algumas expectativas sobre o amor e o cuidado. Se a criança encontra presença, acolhimento e proteção, tende a aprender que o outro pode ser fonte de segurança. Se encontra abandono, frieza, ameaça ou imprevisibilidade, pode aprender que o outro é incerto, perigoso ou indisponível. Mas essas aprendizagens não são sentenças definitivas. Ao longo da vida, novas relações podem confirmar, suavizar ou transformar esses modelos internos.
Apego é uma necessidade humana, não um defeito
Uma das ideias mais importantes sobre o apego é que precisar de conexão não torna ninguém fraco. O ser humano é relacional. Nós nos organizamos por meio dos vínculos. Desde bebês, precisamos de alguém que responda ao choro, alimente, aqueça, proteja e acalme. Com o tempo, aprendemos a andar, falar, pensar, trabalhar e decidir por conta própria, mas a necessidade de ligação emocional não desaparece.
Na vida adulta, não precisamos de colo da mesma forma que um bebê precisa. Mas ainda precisamos de presença. Precisamos de pessoas que nos ajudem a atravessar perdas, celebrar alegrias, suportar incertezas, enfrentar medos e lembrar quem somos quando a vida nos derruba. A maturidade não é deixar de precisar. A maturidade é aprender a se conectar de forma mais clara, responsável e cuidadosa.
Uma pessoa adulta pode morar sozinha, pagar suas contas, tomar decisões difíceis e ainda assim precisar de vínculo. Isso não é contradição. Autonomia e conexão não são inimigas. Pelo contrário: quando a conexão é segura, a autonomia cresce. Quem sente que pode voltar para uma base confiável costuma explorar mais, arriscar mais, aprender mais e se recuperar melhor dos erros.
Pense em uma pessoa que vai fazer uma entrevista importante. Ela estudou, se preparou e sabe que a responsabilidade é dela. Mesmo assim, uma mensagem de alguém querido dizendo “estou torcendo por você” pode mudar seu estado interno. O desafio continua o mesmo, mas o corpo sente mais apoio. Esse é o apego funcionando: não tira a pessoa da vida, mas dá sustentação para ela entrar na vida com mais coragem.
Como o apego aparece nos relacionamentos adultos
Na vida adulta, o apego aparece principalmente nos vínculos que têm peso emocional. Pode ser no casamento, no namoro, em uma amizade profunda, na relação com pais, filhos, irmãos, avós, mentores ou pessoas que representam segurança. Em alguns casos, até uma figura espiritual pode ocupar esse lugar interno de proteção e conforto.
O apego aparece quando buscamos proximidade depois de um dia ruim. Aparece quando sentimos saudade. Aparece quando uma resposta fria nos machuca mais do que imaginávamos. Aparece quando temos medo de sermos trocados. Aparece quando ficamos aliviados ao ouvir a voz de alguém. Aparece quando uma pessoa específica consegue nos acalmar de um jeito que outras não conseguem.
Também aparece quando o vínculo é ameaçado. Uma discussão com um desconhecido pode incomodar, mas uma discussão com alguém amado pode atravessar o peito. A crítica de qualquer pessoa pode ser desagradável, mas a crítica de quem esperamos cuidado pode virar ferida profunda. Isso acontece porque certas pessoas carregam um significado especial para nosso sistema emocional.
Nos vínculos adultos, o apego é mais recíproco do que na infância. Uma criança depende muito mais do adulto. Já em uma relação adulta saudável, os dois podem buscar cuidado e oferecer cuidado. Em um momento, um parceiro apoia. Em outro, é apoiado. Em uma fase, um amigo está mais forte. Em outra, precisa ser acolhido. Essa troca cria um senso de parceria: “não estou acima nem abaixo de você; estamos juntos”.
O apego seguro
O apego seguro aparece quando a pessoa consegue se aproximar sem perder a si mesma e consegue se afastar sem sentir que o vínculo acabou. Ela reconhece que precisa de outras pessoas, mas não vive essa necessidade como humilhação. Consegue pedir ajuda, receber cuidado, oferecer apoio, conversar sobre emoções e lidar com diferenças com mais flexibilidade.
Uma pessoa com mais segurança emocional costuma confiar que, se houver um problema, existe caminho para conversar. Ela não interpreta todo silêncio como abandono, nem toda discordância como rejeição. Pode sentir medo, ciúme ou tristeza, mas tende a conseguir nomear melhor o que acontece por dentro. Ela consegue dizer algo como: “isso me deixou inseguro” em vez de apenas atacar, fugir ou fingir que nada aconteceu.
O apego seguro não significa perfeição. Pessoas seguras também se irritam, se defendem, se confundem e erram. A diferença está na capacidade de reparar. Elas conseguem voltar para a conversa, reconhecer o impacto de suas ações, aceitar cuidado e oferecer presença. A segurança não elimina conflitos; ela cria um caminho mais confiável para atravessá-los.
Em uma relação amorosa, o apego seguro pode aparecer em frases simples: “eu estou aqui”, “vamos conversar com calma”, “não quero te machucar”, “isso é difícil para mim, mas quero entender”, “preciso de um tempo, mas não estou indo embora da relação”. Essas frases acalmam porque comunicam presença. Elas dizem ao sistema emocional: “há tensão, mas não há abandono”.
O apego ansioso
O apego ansioso aparece quando a pessoa vive a proximidade com muito medo de perda. Ela deseja conexão, mas teme que o outro não a ame o bastante, não fique, não responda ou escolha outra pessoa. Por isso, pode ficar hipervigilante. Pequenos sinais ganham grande peso: uma mensagem visualizada sem resposta, uma mudança no tom de voz, uma distração durante a conversa, uma demora para chegar em casa.
Quem funciona nesse modo costuma buscar garantias. Pergunta várias vezes se está tudo bem, cobra provas de amor, sente necessidade de estar sempre em contato, sofre intensamente com distância e pode interpretar limites como rejeição. Às vezes, a pessoa sabe racionalmente que está exagerando, mas o corpo sente perigo. É como se o alarme emocional disparasse antes que a razão consiga organizar a situação.
O apego ansioso pode aparecer em frases como: “você não se importa comigo”, “eu sabia que você ia me deixar”, “se você me amasse, faria isso”, “você está diferente”, “eu sempre sou a última opção”. Por trás dessas frases, muitas vezes existe uma dor mais vulnerável: “tenho medo de não ser importante”, “tenho medo de ser abandonado”, “preciso sentir que você está comigo”.
Quando essa dor não é reconhecida, a pessoa pode protestar de formas que afastam o outro. Pode criticar, insistir, pressionar, acusar ou tentar controlar. O problema é que essas tentativas de aproximação chegam ao outro como ataque. O outro se defende ou se afasta, e isso confirma o medo inicial: “estou mesmo sozinho”. Assim, o ciclo se mantém.
O apego evitativo
O apego evitativo aparece quando a pessoa aprendeu a se proteger diminuindo a importância da proximidade. Ela pode até amar, mas sente desconforto quando a conversa fica muito emocional. Pode preferir resolver tudo sozinha, esconder necessidades, evitar depender, mudar de assunto quando alguém pede intimidade ou se irritar com demandas afetivas.
Muitas pessoas evitativas parecem fortes, independentes e racionais. Às vezes são vistas como frias. Mas, por baixo dessa postura, pode existir uma história de decepções, rejeições ou aprendizados em que precisar de alguém não trouxe conforto. Então o corpo conclui: “é melhor não precisar”. Essa estratégia reduz o risco de dor, mas também reduz a possibilidade de receber cuidado.
Em relações adultas, esse modo pode aparecer em frases como: “não gosto de falar sobre sentimentos”, “você está fazendo drama”, “eu preciso de espaço”, “não vejo problema”, “deixa isso para lá”, “não dependo de ninguém”. Algumas dessas frases podem ser legítimas em certos momentos. O ponto é que, quando viram padrão rígido, impedem a aproximação e deixam o outro sem resposta emocional.
A pessoa evitativa também sente. Ela pode sofrer, ter medo, saudade e desejo de conexão. Mas muitas vezes não reconhece esses sinais com facilidade. Pode sentir tensão no corpo, cansaço, irritação ou vontade de fugir antes de perceber que está vulnerável. Como aprendeu a não mostrar necessidade, talvez só descubra a importância de alguém quando a distância já se tornou grande.
O apego desorganizado ou evitativo temeroso
Há também um modo marcado por conflito intenso: a pessoa quer proximidade e, ao mesmo tempo, teme proximidade. Ela busca cuidado, mas desconfia quando recebe. Deseja ser vista, mas se sente ameaçada quando alguém chega perto demais. Pode alternar entre pedir amor e rejeitar amor, aproximar-se e atacar, entregar-se e desaparecer.
Esse padrão costuma surgir quando figuras importantes foram, ao mesmo tempo, fonte de proteção e fonte de medo. A pessoa aprende que o vínculo é necessário, mas perigoso. Então o corpo fica dividido. Uma parte diz “chegue perto”; outra diz “fuja”. Esse conflito interno pode gerar relações muito intensas, com paixão, medo, brigas, reconciliações e grande sofrimento.
É importante olhar para esse funcionamento sem julgamento. Ele não nasce do nada. Geralmente está ligado a experiências em que o amor veio misturado com ameaça, humilhação, abandono, violência, confusão ou imprevisibilidade. O caminho de mudança exige segurança, paciência, limites claros e novas experiências de relação em que a proximidade não seja usada para controlar ou ferir.
Quando essa pessoa começa a perceber seus movimentos internos, pode aprender a diferenciar passado e presente. Pode notar: “quando alguém se aproxima, meu corpo acha que algo ruim vai acontecer”. Essa consciência não resolve tudo de uma vez, mas abre uma porta. A partir dela, o vínculo deixa de ser apenas reação automática e começa a se tornar escolha mais consciente.
Os modelos internos: mapas que carregamos por dentro
Cada pessoa cria, ao longo da vida, mapas internos sobre si mesma e sobre os outros. Esses mapas não são pensamentos soltos. Eles misturam memórias, emoções, expectativas, sensações corporais e formas habituais de agir. Um mapa pode dizer: “sou digno de amor” ou “preciso provar meu valor”. Outro pode dizer: “as pessoas ficam” ou “as pessoas vão embora”. Outro pode dizer: “pedir ajuda é seguro” ou “pedir ajuda é perigoso”.
Esses mapas influenciam a forma como interpretamos situações. Duas pessoas podem viver a mesma cena e sentir coisas muito diferentes. Imagine que um parceiro está quieto durante o jantar. Uma pessoa mais segura pode pensar: “talvez ele esteja cansado”. Uma pessoa ansiosa pode sentir: “ele está se afastando de mim”. Uma pessoa evitativa pode pensar: “ótimo, assim não preciso falar”. Uma pessoa temerosa pode querer perguntar e, ao mesmo tempo, se preparar para uma briga.
O evento externo é o mesmo: silêncio. Mas o significado emocional muda conforme o mapa interno. Por isso, muitas conversas difíceis não são apenas sobre o que aconteceu. São sobre o que aquilo significou para cada um. Quando entendemos isso, fica mais fácil sair da acusação e entrar na curiosidade: “o que você ouviu por dentro quando eu fiquei em silêncio?”.
A boa notícia é que esses mapas podem mudar. Eles costumam ser persistentes, especialmente quando foram formados em experiências repetidas, mas não são imutáveis. Relações seguras, terapia, amizades confiáveis, reparos sinceros e novas experiências emocionais podem atualizar o mapa. A pessoa começa a descobrir: “talvez eu possa pedir e receber”, “talvez conflito não seja abandono”, “talvez proximidade não seja prisão”.
Como o apego aparece nas brigas
Muitas brigas adultas são conversas de apego disfarçadas. Na superfície, o casal discute horários, celular, dinheiro, tarefas, sexo, família de origem ou falta de atenção. Embaixo, muitas vezes, estão perguntas emocionais: “eu importo?”, “você me escolhe?”, “posso confiar?”, “você me vê?”, “minha dor tem lugar aqui?”.
Quando essas perguntas não são respondidas com segurança, as defesas aparecem. A pessoa ansiosa protesta. A pessoa evitativa se afasta. A pessoa temerosa oscila. A pessoa segura tenta conversar, mas também pode se perder se o clima ficar ameaçador demais. O conflito fica mais duro quando cada um enxerga apenas a defesa do outro e não a dor que existe por trás.
Um exemplo comum: uma parceira diz “você nunca está presente”. O parceiro ouve crítica e responde “nada do que eu faço é suficiente”. Ela se sente ainda mais sozinha e aumenta a cobrança. Ele se sente incapaz e se fecha. O que os dois dizem na superfície parece ataque e defesa. Mas por baixo talvez exista: ela sente medo de não ser prioridade; ele sente vergonha de fracassar e medo de ser rejeitado.
Quando o casal consegue chegar nessa camada mais profunda, a conversa muda. Em vez de “você é egoísta” e “você é impossível”, pode surgir: “eu sinto sua falta” e “eu me sinto um fracasso quando acho que te decepciono”. Essa mudança não é apenas de palavras. É uma mudança de posição emocional. O outro deixa de parecer inimigo e volta a parecer alguém importante.
Como o apego aparece no silêncio
O silêncio também pode ser uma linguagem de apego. Às vezes, ele é descanso, respeito ou necessidade saudável de pausa. Mas, em muitos vínculos, o silêncio vira proteção ou punição. Uma pessoa se cala porque teme piorar a situação. Outra se cala porque não acredita que será ouvida. Outra se cala para controlar. Outra se cala porque não sabe nomear o que sente.
Para quem tem apego ansioso, o silêncio do outro pode ser vivido como abandono. A mente tenta preencher o vazio com explicações dolorosas: “ele não liga”, “ela vai me deixar”, “fiz algo errado”, “não sou suficiente”. Para quem tem apego evitativo, o silêncio pode parecer alívio: “agora estou seguro”, “não preciso lidar com isso”. Mas, se o silêncio vira regra, a relação perde contato.
Um vínculo adulto precisa de pausas, mas também precisa de retorno. Dizer “não consigo conversar agora, mas volto depois” é muito diferente de desaparecer emocionalmente. A primeira postura comunica limite com presença. A segunda comunica ausência. Para o sistema de apego, essa diferença é enorme.
Aprender a usar o silêncio de forma segura é uma habilidade valiosa. Significa pausar antes de ferir, mas não abandonar. Significa respirar, organizar o corpo e voltar. Significa respeitar o próprio limite sem transformar o outro em inimigo. Significa entender que espaço e conexão podem caminhar juntos.
Como o apego aparece na intimidade
A intimidade é um dos lugares onde o apego adulto fica mais visível. Intimidade não é apenas contato físico. É permitir que alguém veja partes nossas que não mostramos ao mundo inteiro: medo, desejo, vergonha, alegria, insegurança, sonho, limite, necessidade. Para algumas pessoas, isso é natural. Para outras, parece perigoso.
Quem tem mais segurança costuma viver a intimidade como encontro. Consegue conversar, brincar, pedir, escutar, tocar, receber e ajustar. Quem tem mais ansiedade pode buscar intimidade como prova de amor, ficando muito sensível a qualquer sinal de distância. Quem tem mais evitação pode separar afeto e vulnerabilidade, mantendo contato físico sem abrir o mundo emocional. Quem tem medo da proximidade pode desejar entrega e, ao mesmo tempo, se defender dela.
Isso não significa que as pessoas sejam caixas fechadas. Ninguém é apenas uma categoria. Em uma relação, uma pessoa pode se sentir segura; em outra, ansiosa. Pode ser evitativa quando pressionada e ansiosa quando sente risco de perda. Pode mudar ao longo da vida. O mais útil não é colocar rótulos fixos, mas perceber padrões: “o que acontece comigo quando preciso de alguém?”, “o que faço quando sinto medo de perder?”, “como reajo quando alguém precisa de mim?”.
A intimidade segura cresce quando há espaço para respostas honestas. Ela pede presença, mas também respeito. Pede abertura, mas também ritmo. Pede coragem para mostrar vulnerabilidade e cuidado para receber a vulnerabilidade do outro. Quando esse ambiente existe, o amor deixa de ser apenas paixão ou costume e se torna abrigo vivo.
Como o apego aparece na família
Nas famílias, o apego aparece em formas de cuidado, proteção, conflito, lealdade, distância e reparação. Pais e filhos vivem uma relação de apego muito intensa, mesmo quando há brigas. Crianças precisam sentir que os adultos são maiores, mais fortes, mais sábios e disponíveis o bastante para proteger. Adolescentes precisam sentir que podem explorar o mundo sem perder completamente a base familiar. Adultos muitas vezes continuam carregando perguntas antigas sobre aprovação, pertencimento e valor.
Uma família segura não é aquela que nunca tem problemas. É aquela que consegue reconhecer emoções, reparar feridas e manter o pertencimento mesmo nas diferenças. Quando um filho erra, a correção pode vir junto com vínculo: “isso precisa mudar, mas você continua sendo meu filho e eu estou aqui para te ajudar a crescer”. Quando um pai se descontrola, pode reparar: “eu falei de um jeito que te assustou; vou tentar fazer diferente”.
Em famílias inseguras, as emoções podem ser vistas como fraqueza, drama ou ameaça. Um chora e é ridicularizado. Outro sente raiva e é punido sem ser escutado. Outro se isola e ninguém percebe. Outro tenta agradar para manter a paz. Com o tempo, cada pessoa encontra um papel: o forte, o difícil, o invisível, o responsável, o rebelde, o pacificador. Esses papéis podem proteger por um tempo, mas também aprisionam.
Quando a família começa a olhar para as necessidades por trás dos comportamentos, algo muda. O filho desafiador talvez esteja dizendo “não sei se tenho lugar”. A mãe controladora talvez esteja dizendo “tenho medo de perder você”. O pai distante talvez esteja dizendo “não sei como entrar sem falhar”. A mudança começa quando a família aprende a falar menos apenas do problema e mais do vínculo ferido.
Apego não é destino
Um ponto essencial: apego não é destino. As primeiras experiências importam muito, mas não escrevem toda a história. O ser humano pode aprender novas formas de amar, pedir, responder e confiar. O cérebro e o corpo podem se abrir para novas experiências de segurança. Relações boas podem ensinar o que faltou. Relações difíceis, quando há responsabilidade e reparo, também podem se transformar.
Isso não quer dizer que a mudança seja simples. Padrões antigos não desaparecem apenas porque entendemos sua origem. Uma pessoa pode saber que tem medo de abandono e ainda assim se desesperar quando alguém demora a responder. Pode saber que se fecha para se proteger e ainda assim congelar em uma conversa emocional. A mudança exige repetição, prática, segurança e paciência.
O primeiro passo é reconhecer o padrão sem se atacar. Em vez de “sou carente demais”, pode ser “meu alarme de perda dispara muito rápido”. Em vez de “sou frio”, pode ser “aprendi a me afastar quando sinto vulnerabilidade”. Em vez de “sou confuso”, pode ser “uma parte minha quer conexão e outra parte tem medo dela”. Essa mudança de linguagem abre espaço para cuidado.
O segundo passo é aprender a comunicar a necessidade de forma mais clara. Defesas costumam esconder pedidos. A crítica pode esconder saudade. O afastamento pode esconder medo. O controle pode esconder insegurança. Quando o pedido aparece de forma menos agressiva e mais vulnerável, a chance de resposta segura aumenta.
Como começar a observar seu próprio padrão
Para entender como o apego aparece na sua vida adulta, observe suas reações em momentos de tensão. O que acontece quando alguém importante se distancia? Você corre atrás, cobra, congela, finge que não liga, tenta controlar, se culpa, se fecha, procura outra pessoa, trabalha demais, come demais, some, manda muitas mensagens, fica em silêncio?
Observe também o que acontece quando alguém se aproxima. Você relaxa? Desconfia? Sente vontade de fugir? Quer mais e mais provas? Fica sem saber o que fazer? A proximidade pode ser tão desafiadora quanto a distância, especialmente para quem aprendeu que amor vem misturado com risco.
Outra pergunta útil é: o que eu costumo acreditar sobre mim quando uma relação fica difícil? Algumas pessoas pensam “não sou suficiente”. Outras pensam “vou ser controlado”. Outras pensam “ninguém fica”. Outras pensam “não posso falhar”. Essas crenças mostram partes do mapa interno.
Também vale observar como você responde quando alguém precisa de você. Você se aproxima? Tenta consertar rápido? Fica irritado? Sente culpa? Some? Dá conselho antes de escutar? A forma como cuidamos dos outros também revela nossa história com cuidado.
Conclusão
Apego é a linguagem profunda dos vínculos humanos. Ele aparece quando buscamos proteção, quando temos medo de perder, quando precisamos de conforto, quando oferecemos cuidado, quando brigamos por distância ou proximidade, quando tentamos amar sem repetir antigas feridas. Na infância, ele começa como necessidade de sobrevivência. Na vida adulta, continua como necessidade de segurança emocional, intimidade e pertencimento.
Entender o apego não serve para colocar pessoas em caixas. Serve para enxergar a lógica humana por trás de reações que, à primeira vista, parecem exageradas, frias ou contraditórias. A pessoa que cobra talvez esteja com medo. A pessoa que se afasta talvez esteja se protegendo. A pessoa que oscila talvez tenha aprendido que o amor é necessário e perigoso ao mesmo tempo.
Quando compreendemos isso, podemos começar a fazer escolhas diferentes. Podemos falar com mais clareza, escutar com mais cuidado, reparar mais cedo, pedir apoio sem vergonha e oferecer presença sem nos perder. O apego mostra que nossa necessidade de conexão não é um problema a ser eliminado. É uma parte central da vida humana, uma força que, quando encontra segurança, ajuda a pessoa a crescer, amar e enfrentar o mundo com mais confiança.
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Referências bibliográficas
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