Brigamos com quem mais amamos porque essas pessoas têm poder emocional sobre nós. Uma palavra fria, uma ausência, uma crítica ou um silêncio de alguém importante toca lugares profundos: medo de rejeição, medo de abandono, vergonha, sensação de não ser prioridade ou pavor de perder a conexão. Muitas brigas não começam pelo assunto aparente. Começam pela ameaça sentida no vínculo.

É comum um casal discutir por coisas práticas: louça, dinheiro, celular, família, atraso, sexo, filhos, rotina ou divisão de tarefas. Mas, por baixo desses temas, muitas vezes existe uma pergunta emocional maior: “você se importa comigo?”, “posso contar com você?”, “eu ainda sou importante?”, “você me vê?”, “você me escolhe?”, “eu tenho lugar na sua vida?”. Quando essa pergunta não recebe uma resposta segura, o conflito cresce.

Pessoas que se amam não brigam apenas porque pensam diferente. Elas brigam porque, em algum momento, deixam de se sentir seguras uma com a outra. O corpo interpreta a distância, a crítica ou a indiferença como ameaça. Então as defesas aparecem. Uma pessoa ataca para tentar ser ouvida. Outra se afasta para não se sentir esmagada. Uma insiste. Outra se cala. Uma cobra. Outra foge. Aos poucos, os dois deixam de se enxergar como parceiros e começam a se enxergar como perigo.

O ponto mais importante é este: muitas brigas repetidas não são sinal de falta de amor. São sinal de que o amor ficou preso em um ciclo de proteção. Cada um tenta se defender da dor, mas a defesa de um aciona a defesa do outro. Assim, duas pessoas que queriam se sentir próximas acabam produzindo mais distância.

O assunto da briga nem sempre é o centro da dor

Pense em uma discussão comum. Uma pessoa diz: “você chegou tarde de novo”. A outra responde: “eu estava trabalhando, você nunca entende”. A primeira aumenta o tom: “sempre tem uma desculpa”. A segunda se fecha: “não vou discutir”. Em poucos minutos, a conversa deixa de ser sobre horário e vira uma batalha sobre consideração, esforço, cobrança e solidão.

O assunto visível era o atraso. O centro emocional talvez fosse outro: “quando você não avisa, eu sinto que não importo”; “quando você me cobra assim, eu sinto que tudo que faço é insuficiente”. Se essas dores não são nomeadas, cada um reage apenas à superfície. Um ouve controle. O outro ouve descaso. O vínculo fica ameaçado.

Isso acontece porque relações importantes carregam significado. Um atraso de um desconhecido pode irritar. Um atraso de alguém amado pode machucar. Uma crítica de qualquer pessoa pode incomodar. Uma crítica do parceiro pode tocar vergonha profunda. Um silêncio em uma reunião pode ser apenas concentração. Um silêncio em casa, depois de uma briga, pode parecer abandono.

Quando entendemos isso, paramos de tratar toda briga como simples falta de comunicação. Muitas vezes, as pessoas até sabem falar. O problema é que falam a partir da defesa, não da vulnerabilidade. Dizem “você nunca me ajuda” quando queriam dizer “estou sozinho e cansado”. Dizem “você me sufoca” quando queriam dizer “tenho medo de perder meu espaço e falhar com você”.

A dança negativa

Uma forma útil de entender conflitos repetidos é imaginar uma dança. A dança tem passos previsíveis. Um se aproxima de um jeito duro. O outro recua. O recuo assusta o primeiro, que se aproxima com mais força. A pressão assusta o segundo, que recua mais. Cada um acredita estar respondendo ao outro, mas, na verdade, os dois estão presos em um padrão.

Essa dança pode acontecer em casais, famílias e amizades. Às vezes, os papéis são claros: um persegue, outro foge. Às vezes, os dois atacam. Às vezes, os dois congelam e ninguém fala. Às vezes, a relação vira caos: aproximação, rejeição, reconciliação, nova explosão. O conteúdo muda, mas a música emocional é parecida.

O problema é que, dentro da dança, cada pessoa só enxerga o passo do outro. Quem cobra pensa: “estou cobrando porque você se afasta”. Quem se afasta pensa: “estou me afastando porque você cobra”. Os dois têm parte da verdade. Mas, se ninguém enxerga o ciclo inteiro, a briga continua.

Uma virada importante acontece quando o casal deixa de pensar “você é o problema” e começa a pensar “nossa dança está nos machucando”. Isso não elimina responsabilidade pessoal. Cada um ainda precisa olhar para o próprio jeito de agir. Mas a relação ganha um inimigo comum: o ciclo negativo, não a pessoa amada.

Muitas brigas melhoram quando a pergunta muda de “quem está errado?” para “que medo está conduzindo nossos passos agora?”.

O ciclo de ataque e ataque

Em alguns relacionamentos, os dois atacam. Um acusa, o outro rebate. Um levanta o tom, o outro aumenta também. Cada frase vira prova contra a outra pessoa. O objetivo deixa de ser entender e passa a ser vencer. A conversa fica cheia de “você sempre”, “você nunca”, “a culpa é sua”, “olha o que você faz comigo”.

Esse ciclo costuma nascer quando os dois se sentem injustiçados e desprotegidos. Ninguém quer baixar a guarda porque baixar a guarda parece perder. A vulnerabilidade fica escondida atrás da raiva. Talvez os dois estejam com medo. Talvez os dois estejam tristes. Talvez os dois se sintam sozinhos. Mas a única emoção que aparece é a raiva.

Quando a raiva domina, ela estreita a visão. A pessoa lembra de todas as vezes em que foi machucada e esquece momentos de cuidado. Interpreta o outro da pior forma possível. A mente monta um caso: “está vendo? Ele nunca muda”; “está vendo? Ela só quer me controlar”. A briga atual puxa uma lista inteira de dores antigas.

Para sair desse ciclo, alguém precisa desacelerar. Não para engolir tudo, mas para mudar a forma da conversa. Uma frase como “eu estou com muita raiva, mas acho que por baixo disso estou me sentindo sozinho” pode quebrar a escalada. Outra frase útil é: “eu quero falar do problema, mas não quero transformar você em inimigo”.

O ciclo de crítica e afastamento

Um dos ciclos mais comuns é crítica e afastamento. Uma pessoa sente distância e tenta puxar o outro com cobrança. O outro sente crítica e tenta se proteger se fechando. Quanto mais um cobra, mais o outro se afasta. Quanto mais o outro se afasta, mais o primeiro entra em pânico e cobra.

Esse padrão costuma unir uma pessoa mais ansiosa no vínculo e outra mais evitativa. A pessoa ansiosa protesta contra a distância: “você não liga”, “você nunca conversa”, “eu sempre fico por último”. A pessoa evitativa se sente atacada e pensa: “nada do que faço basta”, “vou falar e vai piorar”, “preciso sair daqui”.

Por baixo da crítica, pode haver medo de abandono. Por baixo do afastamento, pode haver medo de fracassar, ser engolido ou perder liberdade. Mas, enquanto esses medos não aparecem, os dois só veem o pior um do outro. Um vê frieza. O outro vê pressão. Um vê rejeição. O outro vê controle.

Sair desse ciclo exige novos sinais. Quem cobra precisa aprender a revelar a necessidade de um jeito menos acusatório: “sinto sua falta e queria me aproximar”. Quem se afasta precisa aprender a oferecer presença sem se sentir preso: “estou sobrecarregado, mas não estou indo embora; quero voltar a essa conversa”.

O ciclo de congelamento e fuga

Em algumas relações, o conflito não explode. Ele desaparece na superfície. As pessoas param de falar de assuntos difíceis. Evitam tocar em feridas. Fingem que está tudo bem. Cada uma se ocupa com trabalho, filhos, casa, tela, compromissos ou cansaço. A casa fica calma por fora, mas distante por dentro.

Esse ciclo pode parecer menos grave porque não há gritos. Mas o silêncio constante também machuca. A falta de conflito aberto pode esconder falta de encontro. O casal não briga, mas também não se alcança. A família não discute, mas ninguém fala do que sente. A amizade continua, mas ficou superficial.

O congelamento muitas vezes surge quando as pessoas acreditam que falar vai piorar tudo. Talvez já tenham tentado e se ferido. Talvez tenham crescido em ambientes onde conflitos eram perigosos. Talvez não saibam como discordar sem romper. Então escolhem evitar. A curto prazo, há alívio. A longo prazo, há solidão.

Para sair desse padrão, é preciso criar conversas pequenas e seguras. Não começar pelo assunto mais difícil de todos, nem jogar anos de ressentimento de uma vez. Um caminho melhor é abrir uma porta estreita: “tenho sentido distância entre nós e queria falar disso com calma”. Ou: “não quero brigar, mas também não quero continuar fingindo que está tudo bem”.

O ciclo de caos e ambivalência

Há relações em que os movimentos são intensos e confusos. Uma pessoa busca proximidade e depois rejeita. A outra tenta ajudar e depois ataca. Há promessas, rupturas, reconciliações, acusações, sumiços e voltas. O vínculo parece necessário e perigoso ao mesmo tempo.

Esse ciclo pode aparecer quando há feridas profundas de apego, experiências de traição, abandono, trauma ou histórias em que amor e medo ficaram misturados. A pessoa deseja conexão, mas desconfia dela. Quando o outro chega perto, o corpo se assusta. Quando o outro se afasta, o corpo entra em pânico.

Nesse tipo de ciclo, frases simples podem ter grande carga emocional. “Vamos conversar” pode soar como ameaça. “Preciso de espaço” pode soar como abandono definitivo. “Eu te amo” pode gerar alívio e desconfiança ao mesmo tempo. A relação fica sempre em alerta.

A mudança exige segurança, limites e, muitas vezes, ajuda profissional. Não basta pedir calma. O corpo precisa aprender que proximidade pode ser respeitosa e que distância não precisa ser abandono. Quando há agressão, manipulação, violência ou medo real, a prioridade deve ser proteção e apoio adequado.

Por que a pessoa amada vira ameaça

Parece estranho pensar que alguém amado possa virar ameaça. Mas isso acontece quando a pessoa que deveria ser fonte de segurança passa a ser percebida como fonte de rejeição, crítica, abandono ou invasão. O sistema emocional reage com força porque o vínculo importa.

Em uma relação distante, a pessoa pode sentir solidão. Em uma relação crítica, pode sentir vergonha. Em uma relação imprevisível, pode sentir ansiedade. Em uma relação controladora, pode sentir sufocamento. Em uma relação fria, pode sentir invisibilidade. Esses estados acionam defesas.

A defesa tenta proteger a pessoa, mas nem sempre protege o vínculo. Atacar pode proteger contra a sensação de não ser ouvido, mas fere. Fugir pode proteger contra sobrecarga, mas abandona. Congelar pode proteger contra conflito, mas distancia. Agradar pode proteger contra rejeição, mas apaga a própria verdade.

A pessoa amada deixa de parecer parceira quando passa a representar a dor. O parceiro não é apenas alguém que chegou tarde; é alguém que me faz sentir sem importância. A parceira não é apenas alguém que pediu conversa; é alguém que me faz sentir inadequado. O significado emocional cresce e toma conta.

O que está por baixo da raiva

A raiva aparece muito nas brigas, mas nem sempre é a emoção mais profunda. Muitas vezes, por baixo dela há medo, tristeza, vergonha ou sensação de desamparo. A raiva é mais fácil de mostrar porque dá energia e cria proteção. Dizer “estou furioso” costuma parecer menos vulnerável do que dizer “estou com medo de não importar”.

Quando uma pessoa grita “você nunca me escuta”, talvez esteja dizendo por baixo: “eu me sinto sozinho”. Quando outra responde “você sempre reclama”, talvez esteja dizendo: “eu me sinto um fracasso com você”. Se os dois ficam apenas na raiva, essas mensagens profundas não chegam.

A raiva também pode ser legítima. Há situações em que limites foram atravessados e a raiva mostra que algo precisa mudar. O ponto não é negar a raiva, mas entender o que ela protege. Ela pode proteger dignidade, necessidade de respeito, desejo de conexão ou medo de perda.

Uma conversa muda quando alguém consegue dizer: “estou bravo, mas acho que minha raiva está protegendo uma dor”. Essa frase não diminui a importância do problema. Ela abre uma camada mais humana. O outro talvez consiga escutar melhor a dor do que a acusação.

O que está por baixo do silêncio

O silêncio também tem camadas. Pode parecer indiferença, mas esconder medo. Pode parecer superioridade, mas esconder vergonha. Pode parecer falta de amor, mas esconder congelamento. Muitas pessoas se calam porque não sabem como falar sem piorar a situação.

Quem se cala talvez tenha aprendido que palavras são perigosas. Talvez tenha sido punido por expressar sentimentos. Talvez tenha vivido brigas em que nada se resolvia. Talvez se sinta lento para entender o que sente. Talvez precise de tempo para organizar o corpo. O problema é que, sem explicação, o silêncio pode ferir profundamente.

Para quem espera resposta, o silêncio pode soar como rejeição. A pessoa pensa: “ele não liga”, “ela me deixou sozinho”, “não tenho importância”. Então aumenta a cobrança. A cobrança aumenta o medo de quem se cala. O silêncio fica ainda maior.

Um passo pequeno e poderoso é transformar silêncio em pausa comunicada. Em vez de desaparecer, dizer: “eu estou travando, mas quero voltar”. Em vez de encerrar com frieza, dizer: “preciso de vinte minutos para não falar algo ruim”. Isso preserva o vínculo enquanto dá espaço.

Quando a briga vira prova de amor

Em algumas relações, a briga vira uma forma dolorosa de testar o amor. A pessoa provoca para ver se o outro fica. Ameaça ir embora para ver se será impedida. Cobra intensamente para ver se ainda importa. Fica fria para ver se será procurada. Esses testes geralmente nascem de insegurança.

O problema é que testes machucam. Eles colocam o outro em uma posição impossível. Se responde, parece que o teste funcionou. Se não responde como esperado, confirma o medo. A relação vira um campo de provas, não um lugar de descanso.

Por trás do teste existe um pedido: “me mostre que você fica”. Mas esse pedido chega disfarçado de ameaça, punição ou jogo. O outro pode não entender. Pode se cansar. Pode se proteger. Então a pessoa que testou se sente ainda mais abandonada.

Um caminho mais seguro é trocar teste por pedido. Em vez de “vou terminar, já que você não liga”, tentar: “estou com medo de que você esteja se afastando e preciso saber se ainda quer construir comigo”. Isso é mais vulnerável, mas também mais honesto.

A importância do reparo

Relações saudáveis não são aquelas em que ninguém se machuca. São aquelas em que há reparo. Reparar é voltar ao vínculo depois de uma ruptura. É reconhecer o impacto, não apenas defender a intenção. É dizer: “eu não queria te ferir, mas vejo que feri”. É escutar sem transformar tudo em tribunal.

Muitos casais não se separam por causa de uma única briga. Eles se distanciam porque as rupturas ficam sem reparo. Uma mágoa fica aberta. Depois vem outra. Depois outra. A pessoa para de esperar cuidado. O coração se protege. A distância cresce.

Reparar não significa concordar com tudo. Alguém pode reconhecer a dor do outro e ainda ter uma visão diferente da situação. A frase “entendo que isso te machucou” não significa “sou culpado por tudo”. Significa que o vínculo importa o bastante para eu querer entender seu impacto.

O reparo precisa ser concreto. Pedir desculpas e repetir o mesmo padrão indefinidamente enfraquece a confiança. Um bom reparo une reconhecimento, responsabilidade e tentativa real de mudança. Pode ser simples: “quando eu me calo, você se sente abandonado. Vou tentar avisar quando precisar de pausa”.

Como mudar o começo da briga

Muitas brigas poderiam mudar se o início fosse diferente. O começo costuma definir o tom. Entrar com acusação aciona defesa. Entrar com desprezo aciona ataque ou fuga. Entrar com vulnerabilidade aumenta a chance de resposta cuidadosa, embora não garanta.

Em vez de começar com “você nunca me ajuda”, tente: “estou me sentindo sobrecarregado e preciso de parceria”. Em vez de “você só pensa em você”, tente: “quando fico sem notícias, me sinto esquecido”. Em vez de “você é frio”, tente: “quando você se cala, eu fico sozinho e não sei como chegar até você”.

Essa forma de falar não é fraqueza. É precisão emocional. Ela mostra o que realmente está acontecendo. A acusação costuma esconder a necessidade. A vulnerabilidade revela. Quando a necessidade aparece com clareza, o outro tem mais chance de responder ao ponto certo.

Também ajuda escolher o momento. Conversas difíceis raramente vão bem quando as duas pessoas estão exaustas, com fome, atrasadas ou no auge da raiva. Às vezes, a atitude mais cuidadosa é dizer: “isso é importante e eu quero conversar quando eu conseguir te ouvir melhor”.

Como mudar o meio da briga

Mesmo quando a conversa começa mal, ainda é possível mudar o rumo. O primeiro passo é perceber o ciclo enquanto ele acontece. Uma frase útil é: “acho que entramos naquela nossa dança de novo”. Essa frase tira o foco da culpa individual e coloca luz no padrão.

Depois, cada um pode tentar nomear seu movimento. “Eu comecei a cobrar.” “Eu comecei a me fechar.” “Eu levantei o tom.” “Eu fiquei com medo.” “Eu me senti criticado.” “Eu quis fugir.” Nomear o movimento reduz o automático. A pessoa deixa de ser apenas reação.

Outra saída é pausar sem abandonar. A pausa precisa ter retorno. Dizer “não quero mais falar disso” pode ferir. Dizer “eu preciso de meia hora para me acalmar e volto” protege. A diferença está na mensagem de vínculo: uma fecha a porta; a outra mantém a porta aberta.

Também é útil procurar a emoção mais macia por baixo da defesa. Raiva e frieza costumam ser cascas duras. Por baixo pode haver medo, tristeza, vergonha, saudade, sensação de fracasso ou desejo de ser importante. Quando essa camada aparece, a conversa pode se transformar.

Como mudar o fim da briga

O fim da briga importa muito. Algumas pessoas terminam discussões com portas batidas, ameaças, longos silêncios ou frases cruéis. Mesmo quando o assunto passa, o corpo guarda a sensação de insegurança. A próxima conversa começa mais armada.

Um fim mais seguro não exige resolver tudo na hora. Às vezes, a melhor conclusão possível é: “ainda não resolvemos, mas eu quero continuar tentando sem te machucar”. Ou: “eu preciso descansar, mas não quero que você pense que não me importo”. Ou ainda: “vamos retomar amanhã com mais calma”.

Depois da briga, o reparo pode continuar. Um abraço, uma mensagem, um pedido de desculpas, uma conversa breve sobre o que aconteceu. O importante é o vínculo receber sinal de que não foi abandonado. Relações seguras ensinam que conflito não precisa significar fim.

Também vale aprender com a briga. Não apenas perguntar “quem estava certo?”, mas “qual foi nosso ciclo?”, “qual foi meu ponto sensível?”, “que pedido ficou escondido?”, “como podemos perceber mais cedo da próxima vez?”. Cada conflito compreendido pode virar um mapa para mais segurança.

Quando a briga passa do limite

Nem toda briga deve ser tratada apenas como dificuldade de vínculo. Há situações em que existe violência, humilhação repetida, ameaça, controle, medo, coerção, abuso emocional ou físico. Nesses casos, a prioridade não é melhorar a conversa dentro do mesmo padrão. A prioridade é segurança, proteção e apoio.

Entender emoções e apego não significa justificar agressão. Uma pessoa pode ter medo de abandono e ainda assim precisa aprender a não ferir. Outra pode ter medo de proximidade e ainda assim precisa assumir responsabilidade por sumiços cruéis ou desprezo. História explica, mas não autoriza machucar.

Se uma relação faz alguém viver com medo, se há ameaças, controle de dinheiro, isolamento de amigos, agressões, humilhações constantes ou qualquer risco à integridade, é importante procurar ajuda segura. Pode ser rede de apoio, profissionais especializados, serviços de proteção ou pessoas confiáveis.

Relações saudáveis têm conflito, mas não devem ter terror. Segurança emocional inclui respeito básico. Sem esse chão, conversas profundas podem se tornar perigosas. O cuidado começa pela proteção.

Quando o amor ainda pode encontrar caminho

Em muitas relações, porém, ainda há amor, boa vontade e desejo de mudança. As pessoas estão cansadas, feridas e defensivas, mas não querem destruir o vínculo. Nesses casos, compreender a dança negativa pode ser um alívio enorme. O casal percebe que não está condenado a repetir sempre a mesma cena.

A mudança começa pequena. Um percebe que ataca quando sente medo. Outro percebe que se afasta quando sente vergonha. Um aprende a pedir presença sem acusar. Outro aprende a pedir espaço sem abandonar. Os dois aprendem a reconhecer o ciclo mais cedo.

Com o tempo, a pergunta muda. Antes era: “como faço para vencer essa discussão?”. Depois passa a ser: “como voltamos um para o outro?”. Essa mudança é profunda. Ela coloca o vínculo no centro sem negar os problemas práticos. A louça, o dinheiro, os filhos e a rotina ainda precisam ser discutidos, mas agora com menos ameaça.

Quando as pessoas se sentem mais seguras, conseguem negociar melhor. A segurança não substitui acordos, mas torna os acordos possíveis. Um corpo em guerra não escuta bem. Um corpo que sente presença consegue pensar, ceder, pedir, reparar e construir.

Perguntas para enxergar a briga de outro jeito

Depois de uma discussão, algumas perguntas podem ajudar. A primeira é: “qual foi o assunto visível e qual foi a dor invisível?”. Talvez o assunto fosse atraso, mas a dor fosse solidão. Talvez o assunto fosse dinheiro, mas a dor fosse medo de desamparo. Talvez o assunto fosse celular, mas a dor fosse sensação de não ser prioridade.

A segunda pergunta é: “qual foi meu movimento na dança?”. Eu ataquei? Fugi? Congelei? Tentei agradar? Ironizei? Ameaçei? Me calei? Insisti? Perceber o próprio passo é mais útil do que listar apenas os erros do outro.

A terceira pergunta é: “que emoção mais vulnerável estava por baixo?”. Medo, tristeza, vergonha, saudade, sensação de fracasso, necessidade de descanso, desejo de ser visto? Quanto mais clara a emoção profunda, mais clara pode ser a comunicação.

A quarta pergunta é: “que pedido eu poderia fazer de forma mais direta?”. Em vez de esperar que o outro adivinhe, ou de transformar dor em acusação, procure uma frase simples: “preciso de presença”, “preciso de retorno depois da pausa”, “preciso falar sem ser interrompido”, “preciso saber que ainda estamos juntos”.

Conclusão

Brigamos com quem mais amamos porque o amor nos torna vulneráveis. Pessoas importantes podem nos acalmar, mas também podem tocar medos profundos. Quando a conexão parece ameaçada, o corpo reage. A defesa aparece. Um ataca, outro foge. Um cobra, outro se cala. Um protesta, outro congela. Aos poucos, a relação entra em uma dança negativa.

O caminho de saída não é fingir que os problemas não existem. Também não é decidir quem é o vilão. O caminho começa quando as pessoas conseguem enxergar o ciclo, nomear as emoções mais profundas e transformar defesas em pedidos mais claros. Isso exige coragem, humildade e prática.

Brigas repetidas podem destruir a confiança quando ficam sem reparo. Mas também podem se tornar oportunidades de compreensão quando revelam necessidades escondidas. Por trás de muitas acusações existe saudade. Por trás de muitos silêncios existe medo. Por trás de muita raiva existe dor. Por trás de muita fuga existe vergonha ou sobrecarga.

Quando duas pessoas aprendem a olhar para esses sinais com mais cuidado, a conversa muda. O outro deixa de ser apenas ameaça e volta a ser alguém amado. O conflito deixa de ser um campo de guerra e pode se tornar uma porta estreita para mais verdade. Amar não é nunca brigar. Amar, quando há segurança, é aprender a voltar.

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