O trauma muda a forma como a pessoa sente o mundo, o próprio corpo e os vínculos. Depois de experiências de medo, abandono, abuso, humilhação ou desamparo, o amor pode deixar de parecer abrigo e começar a parecer risco. A pessoa deseja proximidade, mas desconfia dela. Precisa de apoio, mas pode atacar, fugir, congelar ou se desligar justamente quando mais precisa ser acolhida.
Trauma não é apenas uma lembrança ruim. É uma experiência que continua vivendo no corpo e na forma como a pessoa interpreta sinais de perigo. Uma voz mais alta pode soar como ameaça. Um silêncio pode parecer abandono. Um olhar de desapontamento pode tocar vergonha antiga. Uma demonstração de carinho pode gerar alívio e medo ao mesmo tempo. O presente fica misturado com marcas do passado.
Quando falamos de trauma e amor, precisamos ter cuidado para não simplificar demais. Não basta dizer à pessoa traumatizada: “confie”, “relaxe”, “esqueça”, “isso já passou”. Para o corpo dela, muitas vezes não passou. O sistema de proteção continua ativo. Ele tenta impedir que a dor se repita. O problema é que, ao proteger, pode afastar justamente as pessoas que poderiam oferecer cuidado.
A segurança muda tudo porque o trauma costuma envolver perda de segurança. Às vezes, a pessoa viveu perigo real. Às vezes, quem deveria proteger foi quem feriu. Às vezes, ninguém veio quando ela precisou. Por isso, a cura não acontece apenas por explicações. Ela precisa de novas experiências: ser vista sem ser invadida, acolhida sem ser controlada, escutada sem ser humilhada, acompanhada sem ser abandonada.
Trauma é uma ferida na sensação de segurança
Uma experiência traumática ensina ao corpo que o mundo pode ser perigoso demais, que outras pessoas podem não ser confiáveis ou que a própria vulnerabilidade pode levar a dor. Essa aprendizagem pode acontecer em um evento único, como uma agressão, acidente, perda súbita ou violência. Também pode acontecer em experiências repetidas, como abuso na infância, negligência, críticas constantes, instabilidade familiar, ameaças, humilhação ou abandono emocional.
Quando o trauma vem de uma pessoa estranha, a dor já é profunda. Mas quando vem de alguém que deveria cuidar, a ferida atinge o vínculo de forma ainda mais intensa. A pessoa aprende que a fonte de proteção também pode ser fonte de medo. Isso cria uma confusão interna: “eu preciso de pessoas, mas pessoas são perigosas”.
Na vida adulta, essa contradição aparece nos relacionamentos. A pessoa pode querer muito ser amada, mas desconfiar quando alguém se aproxima. Pode pedir presença e depois rejeitar. Pode sentir saudade e, ao mesmo tempo, vontade de fugir. Pode atacar antes de ser ferida. Pode se desligar quando a emoção fica grande demais.
Quem convive com alguém traumatizado pode ficar confuso. “Por que ela me afasta se diz que precisa de mim?” “Por que ele se fecha quando tento ajudar?” “Por que uma conversa pequena vira uma reação tão intensa?” A resposta muitas vezes está no corpo em alerta, tentando prever perigo antes que ele aconteça.
O corpo traumatizado vive em vigilância
Depois de experiências traumáticas, o corpo pode funcionar como se precisasse monitorar o ambiente o tempo todo. A pessoa observa tons de voz, expressões faciais, demoras, mudanças de humor, distâncias e detalhes que outras pessoas talvez nem percebam. Essa vigilância não é frescura. É uma estratégia de sobrevivência.
Em alguns casos, a pessoa fica hiperativada. Reage rápido, sente tudo com intensidade, assusta-se facilmente, entra em pânico, tem explosões de raiva, chora muito, tem dificuldade de dormir ou sente que algo ruim está prestes a acontecer. O corpo tenta lutar ou fugir.
Em outros casos, a pessoa fica hipoativada. Desliga, congela, fica distante, sente vazio, perde contato com o que sente, parece fria, fala pouco, tem dificuldade de pedir ajuda ou sente que está observando a vida de longe. O corpo tenta sobreviver reduzindo a intensidade.
Em relacionamentos, esses dois estados podem se alternar. A pessoa pode buscar conexão com urgência em um momento e se fechar completamente em outro. Pode parecer contraditória, mas seu sistema interno está tentando encontrar segurança. O problema é que o outro pode interpretar esses movimentos como rejeição, manipulação ou falta de amor.
Muitas reações traumáticas são tentativas de proteção. Elas podem machucar o vínculo, mas costumam nascer de um corpo que aprendeu a esperar perigo.
Quando o amor aciona o medo
Parece estranho, mas o amor pode acionar medo. Isso acontece porque amar envolve depender, mostrar necessidade, abrir partes vulneráveis e permitir que alguém tenha importância. Para quem foi ferido em vínculos importantes, tudo isso pode soar perigoso.
Uma pessoa pode se sentir segura enquanto a relação está leve e distante. Mas, quando a intimidade cresce, começam os alarmes. O parceiro quer conversar sobre sentimentos. O vínculo fica mais sério. A pessoa percebe que está precisando do outro. De repente, o corpo diz: “cuidado”. A aproximação, que poderia ser fonte de conforto, passa a ser sentida como ameaça.
O amor também pode acionar medo porque desperta a possibilidade de perda. Quanto mais alguém importa, mais assustador é imaginar abandono. Quem já perdeu, foi traído ou deixado em momentos importantes pode viver cada sinal de distância como aviso de catástrofe. Uma mensagem não respondida pode parecer o início de um abandono.
O resultado é doloroso: a pessoa deseja segurança, mas reage de modos que dificultam a segurança. Pode testar, desconfiar, acusar, se afastar, controlar ou endurecer. Essas respostas tentam evitar dor, mas podem criar a mesma solidão que a pessoa teme.
O sobrevivente pode precisar mais e pedir pior
Uma das grandes dificuldades do trauma é que a pessoa pode precisar muito de apoio, mas ter dificuldade de pedir esse apoio de forma clara. Em vez de dizer “estou com medo, fique comigo”, pode sair como raiva: “você não presta atenção em mim”. Em vez de dizer “preciso de conforto”, pode sair como afastamento: “me deixa em paz”. Em vez de dizer “não confio ainda”, pode sair como sarcasmo, controle ou desconfiança constante.
O parceiro, familiar ou amigo pode não reconhecer o pedido escondido. Ouve acusação e se defende. Encontra silêncio e se sente rejeitado. Vê agressividade e se afasta. Então a pessoa traumatizada sente que ninguém fica, ninguém entende, ninguém é confiável. O ciclo se confirma.
Isso não significa que tudo deve ser aceito. A dor do trauma não autoriza agressão, humilhação ou controle. Mas compreender a lógica do pedido escondido ajuda a responder com mais precisão. Em vez de reagir apenas à defesa, é possível perguntar: “você está com medo agora?”, “isso tocou alguma lembrança?”, “você precisa que eu fique perto, mas de um jeito mais calmo?”.
Para quem carrega trauma, uma tarefa importante é aprender a traduzir reações em pedidos. “Estou com vontade de te atacar, mas acho que estou com medo.” “Estou querendo fugir, mas não quero me desligar de você.” “Meu corpo está dizendo que não posso confiar, mesmo que uma parte minha queira tentar.”
Defesa agressiva e entorpecimento
Duas respostas traumáticas aparecem muito nos vínculos: defesa agressiva e entorpecimento. Na defesa agressiva, a pessoa tenta se proteger atacando. Pode usar palavras duras, acusar, desafiar, testar ou interpretar tudo como ameaça. O corpo escolhe lutar.
No entorpecimento, a pessoa se desliga. Fica fria, distante, ausente, sem palavras, sem expressão ou sem acesso ao que sente. O corpo escolhe congelar ou reduzir a dor. Para quem está do lado de fora, isso pode parecer indiferença. Mas, por dentro, pode haver medo intenso ou sobrecarga.
Essas respostas confundem os vínculos. A pessoa que ataca pode estar desesperada por cuidado, mas sua forma afasta. A pessoa que se desliga pode estar precisando de segurança, mas parece inacessível. O outro, sem entender, responde com defesa, crítica ou distância. A insegurança aumenta.
A mudança começa quando essas respostas são nomeadas sem vergonha. “Quando me sinto ameaçado, eu entro em modo de batalha.” “Quando a emoção passa do limite, eu desligo.” Nomear permite criar alternativas. O corpo não muda de uma vez, mas começa a ganhar novas possibilidades.
Trauma e apego temeroso
Muitas pessoas traumatizadas vivem uma forma de apego marcada por aproximação e medo ao mesmo tempo. Elas desejam vínculo, mas desconfiam dele. Precisam de conforto, mas se assustam quando recebem. Querem ser vistas, mas temem exposição. Essa combinação costuma ser muito dolorosa.
Na prática, pode aparecer como oscilação. A pessoa pede proximidade e depois se irrita quando o outro chega perto. Reclama da distância, mas rejeita cuidado. Fala que quer confiança, mas procura provas de traição. Diz que quer paz, mas entra em modo de batalha. Muitas vezes, ela mesma não entende seus movimentos.
O apego temeroso faz sentido quando lembramos que, para essa pessoa, figuras importantes podem ter sido fonte de cuidado e de medo. O corpo não sabe se deve ir em direção ao vínculo ou fugir dele. Então alterna. Essa alternância pode ser muito difícil para quem convive, porque parece imprevisível.
Construir segurança nesse caso exige tempo, consistência e limites. A pessoa precisa de experiências repetidas em que a proximidade não seja invasiva, o limite não seja abandono, o erro não vire humilhação e a emoção não seja usada como arma. Não há pressa segura nesse processo.
Por que segurança corporal vem antes de conversa profunda
Quando o corpo está em estado de ameaça, conversas profundas podem não funcionar. A pessoa pode até ouvir palavras, mas o sistema nervoso está ocupado tentando sobreviver. Nesse estado, ela interpreta sinais com mais perigo, reage mais rápido e tem menos acesso à reflexão.
Por isso, segurança corporal vem antes de grandes explicações. Tom de voz calmo, distância respeitosa, previsibilidade, pausas combinadas, ausência de ameaças, ambiente tranquilo e permissão para respirar podem ser mais importantes do que um discurso perfeito.
Uma pessoa traumatizada pode precisar de sinais muito concretos: “eu não vou gritar”, “não vou encostar em você sem perguntar”, “vou avisar antes de sair”, “se eu precisar de pausa, vou dizer quando volto”. Esses sinais ajudam o corpo a diferenciar presente e passado.
A conversa profunda só se torna possível quando há segurança suficiente. Forçar vulnerabilidade em um corpo aterrorizado pode aumentar defesa. Cuidado real respeita ritmo.
O amor não cura sozinho, mas pode ser parte da cura
É importante não romantizar. Amor, sozinho, não cura trauma complexo. Uma pessoa pode amar muito alguém e ainda assim não saber oferecer o tipo de segurança necessário. Um parceiro não substitui terapia, rede de apoio, tratamento médico quando necessário ou proteção em situações de risco.
Ao mesmo tempo, vínculos seguros podem ser profundamente reparadores. Ser amado de forma consistente, respeitosa e previsível pode criar experiências novas para um corpo que aprendeu desconfiança. Um parceiro, amigo ou familiar confiável pode ajudar a pessoa a sentir que não precisa enfrentar todos os dragões sozinha.
A diferença está na qualidade do vínculo. Um amor instável, crítico, invasivo ou ameaçador pode reabrir trauma. Um amor seguro oferece presença, limites, respeito e reparo. Ele não exige que a pessoa “supere logo”. Ele caminha junto, sem virar salvador.
O amor que ajuda não diz “eu vou consertar você”. Diz: “eu quero aprender como estar com você de forma segura, sem abandonar a mim mesmo e sem abandonar você”.
O parceiro também precisa de cuidado
Conviver com trauma em um relacionamento pode ser difícil. O parceiro pode se sentir confuso, rejeitado, acusado, impotente ou exausto. Pode tentar ajudar e ser recebido com desconfiança. Pode se aproximar e ser afastado. Pode se afastar para respirar e ser acusado de abandono.
É importante reconhecer essa dor também. Cuidar de alguém traumatizado não significa aceitar ser ferido continuamente. O parceiro precisa de limites, apoio e espaço para falar da própria experiência. Se ele se sacrifica completamente, pode acabar ressentido ou emocionalmente esgotado.
Uma relação segura para trauma precisa cuidar dos dois lados. A pessoa traumatizada precisa de paciência e previsibilidade. O parceiro precisa de reconhecimento e limites. Ambos precisam aprender a nomear o ciclo: “quando você se assusta, você ataca; quando você ataca, eu me fecho; quando eu me fecho, seu medo aumenta”.
Ver o ciclo ajuda o casal a deixar de transformar um ao outro em inimigo. O inimigo passa a ser a dança de medo, defesa e afastamento. Essa mudança abre espaço para cooperação.
Limites são parte da segurança
Algumas pessoas pensam que, por causa do trauma, não se deve colocar limite. Isso é um engano. Limites claros são parte da segurança. Eles ajudam a relação a não se tornar caótica, abusiva ou confusa.
Um limite seguro pode ser: “eu quero te ouvir, mas não consigo continuar se houver xingamentos”. “Eu posso ficar perto, mas preciso que você não invada meu celular.” “Eu entendo que você está com medo, mas não aceito ameaças.” “Eu preciso de pausa e vou voltar em trinta minutos.”
Limites precisam ser firmes e cuidadosos. Se forem ditos como punição, podem acionar abandono. Se não forem ditos, podem gerar ressentimento. O equilíbrio é comunicar: “eu me importo com você e também preciso proteger a relação e a mim mesmo”.
Para quem tem trauma, limites podem inicialmente parecer rejeição. Por isso, ajuda muito quando vêm acompanhados de vínculo: “eu não estou indo embora de você; estou impedindo que a conversa nos machuque mais”.
Trauma, confiança e tempo
Confiança não nasce por ordem. Uma pessoa traumatizada pode querer confiar e não conseguir. Pode amar alguém e ainda esperar traição. Pode receber cuidado e desconfiar. Isso não significa que ela esteja escolhendo sofrer. O corpo aprendeu que confiar pode ser perigoso.
A confiança volta por experiências repetidas. O outro diz que volta e volta. Diz que escuta e escuta. Diz que não vai usar uma vulnerabilidade como arma e não usa. Diz que vai respeitar um limite e respeita. A pessoa percebe, aos poucos, que o presente talvez seja diferente.
O tempo, porém, precisa ser acompanhado de mudança. Esperar sem novas experiências não transforma confiança. A pessoa traumatizada precisa ver sinais concretos de segurança. O parceiro precisa ver esforços concretos de comunicação e responsabilidade. Ambos precisam de passos pequenos e consistentes.
Uma frase útil é: “não precisamos resolver toda a confiança hoje; precisamos criar uma experiência segura agora”. Cada experiência segura é um tijolo.
Quando o passado invade o presente
Um sinal comum do trauma é a sensação de que o passado invade o presente. A pessoa está em uma conversa atual, mas o corpo reage como se estivesse de volta a uma cena antiga. Isso pode acontecer com cheiros, tons de voz, expressões, lugares, datas, palavras, toques ou situações de intimidade.
Quando isso acontece, a pessoa pode ter reações que parecem grandes demais para a situação. Mas, para o corpo, a situação não é pequena. Ela toca um alarme antigo. A primeira tarefa é reconhecer: “algo foi acionado”. Isso ajuda a pessoa e o vínculo a não se perderem em acusações.
Uma resposta segura pode ser: “acho que isso tocou algo antigo; vamos desacelerar”. Ou: “eu estou aqui agora, não quero te machucar”. Ou, se você é a pessoa acionada: “meu corpo está reagindo como se eu estivesse em perigo; preciso de um minuto para voltar para o presente”.
Essas frases ajudam a diferenciar passado e presente. Essa diferenciação é essencial. A pessoa não precisa negar que foi acionada, mas também não precisa tratar automaticamente o outro como agressor do passado.
A importância da previsibilidade
Pessoas traumatizadas costumam se beneficiar muito de previsibilidade. Não porque sejam frágeis, mas porque o corpo delas já viveu imprevisibilidade demais. Sinais claros reduzem a necessidade de vigilância.
Previsibilidade pode ser avisar quando vai atrasar. Dizer quando precisa de pausa. Cumprir combinados. Não alternar carinho intenso e frieza sem explicação. Não ameaçar terminar a cada conflito. Não desaparecer emocionalmente por dias. Não mudar regras o tempo todo.
Pequenas consistências comunicam segurança. “Quando você diz que volta, volta.” “Quando diz que quer conversar, conversa.” “Quando erra, repara.” “Quando precisa de espaço, avisa.” O corpo começa a sentir que não precisa adivinhar tudo.
A imprevisibilidade, por outro lado, pode reativar trauma. Relações caóticas podem parecer familiares, mas não são necessariamente saudáveis. Às vezes, a pessoa confunde intensidade com amor porque segurança parece estranha. Aprender segurança pode parecer monótono no começo, mas é o chão onde a cura se torna possível.
O papel da terapia
A terapia pode ser muito importante quando há trauma. Um espaço terapêutico seguro ajuda a pessoa a nomear o que viveu, regular emoções, entender gatilhos, reconstruir senso de valor e criar novas formas de se relacionar. O terapeuta não força a pessoa a reviver tudo de uma vez; ajuda a trabalhar em ritmo possível.
A terapia individual pode ajudar a pessoa a reconhecer seus padrões de proteção. A terapia de casal pode ajudar quando o trauma está afetando a relação e há segurança suficiente para trabalhar juntos. A terapia familiar pode ser útil quando feridas atravessam pais, filhos e irmãos.
Em situações de alto risco, como violência, abuso, uso grave de substâncias, risco suicida ou depressão profunda, pode ser necessário envolver outros profissionais e formas de cuidado. Trauma pede responsabilidade e rede. Ninguém precisa resolver tudo sozinho.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de construir segurança quando a vida ensinou insegurança. É dizer: “o que aconteceu comigo importa, e eu mereço cuidado para não viver preso a isso”.
Como amar alguém com história de trauma
Amar alguém com história de trauma exige sensibilidade, mas não exige perfeição. Algumas atitudes ajudam muito. A primeira é acreditar que reações intensas têm história, mesmo quando você não entende tudo. Isso não significa aceitar qualquer comportamento, mas evita reduzir a pessoa a “difícil”.
A segunda é oferecer presença previsível. Dizer o que pode oferecer e cumprir. Não prometer mais do que consegue. Não usar ameaças para controlar. Não brincar com abandono. Para alguém traumatizado, ambiguidades podem ser muito dolorosas.
A terceira é perguntar o que ajuda. “Quando você é acionado, é melhor eu ficar perto ou te dar espaço?” “Que frase te ajuda a lembrar que está seguro?” “O que piora para você?” Essas perguntas mostram respeito e evitam adivinhação.
A quarta é cuidar de si. Não vire salvador. Tenha apoio, limites e vida própria. Um vínculo seguro precisa de duas pessoas inteiras, não de uma pessoa resgatando e outra sendo resgatada. Amor saudável caminha junto, mas não substitui todo o cuidado necessário.
Como buscar amor quando se carrega trauma
Para quem carrega trauma, buscar amor pode parecer assustador. Um caminho é começar com honestidade gradual. Não é preciso contar tudo de uma vez. Mas, em relações que se tornam importantes, pode ser útil dizer algo como: “algumas situações me acionam; às vezes posso reagir com medo ou me fechar. Estou aprendendo a comunicar melhor”.
Também é importante observar se a pessoa do outro lado responde com respeito. Segurança não depende apenas de você se esforçar. Se o outro ridiculariza, pressiona, invade, ameaça ou usa sua vulnerabilidade contra você, isso não é um ambiente seguro para cura.
Procure relações em que limites sejam respeitados, conversas possam ser retomadas, desculpas sejam acompanhadas de mudança e cuidado não seja usado como moeda de controle. O corpo talvez estranhe esse tipo de relação no começo. Dê tempo ao tempo, mas observe atitudes.
Você também pode aprender a dizer o que precisa de modo mais claro: “preciso de uma pausa, mas não quero sumir”; “quando você levanta a voz, meu corpo entra em alerta”; “eu quero confiar, mas preciso de consistência”; “se eu parecer distante, talvez eu esteja sobrecarregado”.
Segurança não apaga o trauma, mas cria novo futuro
A segurança não apaga o que aconteceu. Ela não muda o passado nem faz a pessoa esquecer tudo. Mas cria uma experiência nova: o passado não precisa ser repetido em todo vínculo. A pessoa começa a descobrir que pode existir presença sem invasão, cuidado sem controle, intimidade sem ameaça, limite sem abandono.
Essa descoberta pode ser lenta. Em alguns dias, a pessoa confia mais. Em outros, o medo volta. Isso não significa fracasso. Recaídas e retrocessos fazem parte do caminho, especialmente quando o trauma é complexo. O importante é haver retorno, reparo e apoio.
Com o tempo, a pessoa pode se sentir menos governada pelos alarmes. Pode perceber gatilhos mais cedo. Pode pedir apoio antes de atacar. Pode pedir pausa antes de sumir. Pode receber carinho sem tanta desconfiança. Pode escolher relações mais seguras.
O amor seguro não promete uma vida sem medo. Ele oferece companhia, respeito e previsibilidade suficientes para que o medo não precise comandar tudo.
Conclusão
Trauma e amor se encontram de formas complexas. O trauma ensina o corpo a esperar perigo. O amor pede abertura, confiança e dependência saudável. Por isso, quem carrega trauma pode viver uma luta interna: deseja conexão, mas teme conexão; precisa de apoio, mas tem dificuldade de pedir ou receber; quer descansar no vínculo, mas continua em vigilância.
A segurança muda tudo porque fala diretamente com a ferida central do trauma. Ela comunica: “agora há presença”, “agora há respeito”, “agora há retorno”, “agora sua dor tem lugar”, “agora limites podem existir sem abandono”. Essa mensagem precisa ser vivida muitas vezes, não apenas dita.
Relações seguras não substituem todos os cuidados necessários, mas podem ser parte profunda da cura. Terapia, rede de apoio, proteção, limites, previsibilidade e reparo ajudam a pessoa a reconstruir confiança em si, no corpo e nos vínculos. O caminho precisa ser cuidadoso, especialmente quando há risco, violência ou sofrimento intenso.
A pessoa traumatizada não precisa ser reduzida ao que sofreu. Ela pode construir novas formas de amar e ser amada. E quando encontra segurança suficiente, começa a aprender algo que talvez a vida tenha negado por muito tempo: não é preciso enfrentar todos os dragões sozinho.
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